Terezinha Bazé - Educação e Desenvolvimento da Competência Humana
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FORMAÇÃO DE PROFESSORES E CIDADANIA

27/07/2010 - 19h37

 


LIMA, Terezinha Bazé
QUEIROZ, Susy Regina da Silva
Projeto de pesquisa/IESF/UNIGRAN- Campo Grande – MS
 
RESUMO
 
Formação de Professores e Cidadania é uma experiência do “Instituto de Ensino Superior da Fundação Lowtons de Educação e Cultura” em parceria com a UNIGRAN – Centro Universitário da Grande Dourados, com crianças e mães da Pastoral da Criança da “Vila Margarida” situada na região norte de Campo Grande, estado de Mato Grosso do Sul. A pesquisa surge a partir do projeto de extensão “Direitos da Criança: Vozes e Vezes de Mães e Filhos”, tendo iniciada em fevereiro de 2003, envolvendo 30 mães, 50 crianças e 10 acadêmicos. Com a intenção de desenvolver o senso crítico e o espírito científico bem como, a capacidade de ordem ética e de relação interpessoal na profissão do pedagogo, assim como vivências educacionais, além do espaço escolar. Objetiva o desenvolvimento de ações de Responsabilidade Social, visando contribuir com o bem-estar, a qualidade de vida, com vistas a recuperação do abandono, da violência, da tristeza, da péssima qualidade de higiene física e mental das crianças e do seu entorno. E ainda, promover ações de geração de rendas com a finalidade de contribuir na construção de uma sociedade fraterna e solidária. As ações desenvolvidas durante os dois anos de execução do projeto, foram pautadas no atendimento das Diretrizes Curriculares para a formação do professor de Educação Básica, principalmente no que diz respeito ao domínio de competências na formação do pedagogo e seu envolvimento com a educação de criança, jovens e adultos em programas sociais, realizados em espaços não formais. A pesquisa do tipo social-participante está fundamentada em Brandão (2002), Demo (2001), Freire (1997), Minayo (1999), MEC/SEF Referências da Educação Infantil (1998), UNICEF (1998), Vygostsky (1989), Zabalza (1998), e ainda, no manual da Pastoral da Criança. A Metodologia proposta envolve estudos em grupo, oficinas, preparação de atividades, observação participante, entrevista, registro, palestras, músicas e roda de conversas e o contato direto com a comunidade, ocorrendo mensalmente durante as reuniões da Pastoral da Criança. As temáticas em desenvolvimento através de projetos de Iniciação Científica estão ligadas aos seguintes assuntos: História de vida dos líderes comunitários; Relações afetivas das mães com os filhos; O brincar da criança excluída; Desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças; Organização da pastoral da criança e suas contribuições para a qualidade de vida de mães e crianças carentes; Construção do conhecimento em ambiente não formal. Os resultados apontam mudança no comportamento, na auto-estima, no cuidado corporal, nas freqüências às reuniões, na habilidade e competência dos acadêmicos com relação à formação teórica-prática para saber lidar com as diferenças econômicas, sociais, culturais presentes na sociedade e ainda, na identificação dos processos pedagógicos, que ocorrem nas relações sociais mais amplas: nos movimentos sociais organizados, na rua, nas comunidades e nas associações.
 
 
PALAVRAS-CHAVE: INCLUSÃO SOCIAL. RESPONSABILIDADE E FORMAÇÃO DE PROFESSORES.
 
 
FORMAÇÃO DE PROFESSORES E CIDADANIA
 
 
LIMA, Terezinha Bazé
QUEIROZ, Susy Regina da Silva
Projeto de pesquisa/IESF/UNIGRAN- Campo Grande – MS
 
Hoje a economia globalizada e a política neoliberal trazem profundas implicações para a educação considerando que cada estágio de desenvolvimento dessas forças produtivas gesta um novo projeto pedagógico, que demanda políticas de formação de profissionais para cada campo de atuação.
Desta forma, as Diretrizes Curriculares que embasam a formação de professores para o Ensino Fundamental destacam novas competências e habilidades que precisam ser trabalhadas na organização curricular.
Isso significa que ao profissional da educação são necessárias novas áreas de atuação, assim como novos lugares e setores com a finalidade de dominar as ferramentas necessárias para construir categorias de análise que lhe permitam aprender e compreender as diferentes concepções e práticas educacionais, tais como, transformar o conhecimento social e historicamente produzido em saber escolar, sabendo selecionar e organizar conteúdos a serem trabalhados de forma metodológica adequada.
Portanto, os cursos de formação de professores precisam dar respostas às exigências de uma formação cidadã participando como um dos atores da organização de projetos educativos, escolares e não escolares que expressem aos anseios de uma sociedade comprometida com a responsabilidade social.
Compreender as dimensões pedagógicas das relações sociais em sua amplitude, o qual para realizá-la com competência, deverá estar apto para apropriar-se das diferentes formas de interpretação da realidade que se constituem em objeto de vários campos do conhecimento, bem como estabelecer interlocução com os agentes sociais e que tome como eixo os processos educativos, que permitam compreender os mecanismos para intervir nas práticas no sentido da transformação da realidade.
Isto posto, a pesquisa em desenvolvimento busca a formação do professor também para o compromisso do exercício da cidadania, com a devida competência para atuar em espaços não formais apto ao desenvolvimento de atividades sócio-educativas e educacionais.
 
Tendo nascido do bojo da experiência extencionista, que teve início em fevereiro de 2003, justifica-se esse projeto pela necessidade de bem estar e de qualidade de vida das crianças que necessitam ser proporcionadas para recuperar, o abandono, a violência, a tristeza e a péssima qualidade de vida, incluindo a higiene física e mental na infância. O Projeto foi elaborado para atender crianças e mães que atuam na Pastoral da Criança de uma comunidade situada na região norte de Campo Grande-MS- A Vila Margarida.
O Programa Pastoral da Criança objetiva salvar vidas e cuidar/educar de 0 a 6 anos e construir a Paz em prol das crianças, no contexto de suas famílias e sua comunidade, além de auxiliar no combate à fome e à desnutrição, promovendo a inclusão social.
O corpo teórico desse trabalho tem como base o próprio manual da Pastoral da Criança, além dos teóricos, Brandão (2002), Demo (2001), Freire (1997), MEC/SEF Referenciais da Educação Infantil (1998), Mynaio (1998), UNICEF (1998), Vygotsky (1989), Zabalza (1998). Formamos um pensamento baseado nos autores que subsidiam o corpo teórico da pesquisa do tipo social-participante. Considerando a pesquisa social-participante como um estatuto que não está pronto e nem definido; sua construção vai se dando como processo na prática de também aprender com a comunidade. Recorremos a Brandão (2002, p.37) que pontua:
 
Quero defender a pesquisa social em nome de tudo que leio dentro e fora do nome da ciência e em favor de tudo o que vejo acontecer em minha volta, que as outras pessoas que não os cientistas de carreira também pesquisam, quando dedicam meia vida a uma persistente reflexão sobre o dilema do destino da pessoa humana.
Que aquilo que damos o nome de senso comum ou mesmo de pensamento selvagem configura outras alternativas de fazer pergunta e criar mecanismo de buscar respostas.
 
Assim como o autor, defendemos a idéia de que esse tipo de pesquisa é mais abrangente e diferenciado em sua metodologia, considerando o pressuposto das linhas de demarcação entre o legítimo e o ilegítimo, entre o válido e o inválido, entre o confiável e o inconfiável e, portanto, são mais interativas.
Desta forma, a pesquisa social-participante sobre pessoas e grupos sociais comunitários, quando acolhida pela academia, ganha um estilo qualitativo sensível à vida cotidiana e à visão que dela têm os atores com quem vai interagir e a quem vai trabalhar os conceitos, idéias, identidade, vida simbólica, imaginários sociais, enfim, tudo concernente à cultura do grupo e da comunidade.
Hoje, para nós professores, acadêmicos e comunidade, uma experiência que tem a ver com vivência consciente, com aquilo que vive em um continuum de vidas dedicadas a construir um mundo melhor, um mundo de esperanças e de alegria.
Podemos afirmar com base em BRANDÃO (2002), que este tem sido o caminho encontrado para a realização de um saber pautado na compreensão, na solidariedade, na justiça, na igualdade e na partilha da felicidade – do Bem e da Paz. Estamos acreditando nisto porque é muito difícil ser educador sem acreditar profundamente nesses valores da vida e da ação social.
De perto ou de longe, no laboratório ou na periferia, não importa o lócus as pesquisas deste tipo são emancipatórias e realizam a vocação da experiência humana. Em outras palavras, podemos afirmar que chegamos a um momento da história humana em que mais do que nunca, o lugar da ciência, das tecnologias de ação social e de socialização da natureza são centrais e cruciais. Assim, podemos pensar que a razão de ser da educação não é apenas o ato de capacitar instrumentalmente profissionais por meio da transferência de conhecimentos consagrados, mas além disso, o gesto de formar pessoas na inteireza do seu ser e de sua vocação de criarem-se a si mesmas e partilharem com os outros a construção livre e responsável de seu próprio mundo social da vida cotidiana. Sendo assim, seu sentido é mais do que recriar continuamente comunidades aprendentes geradoras de saberes, e, de maneira crescente e sem limites, abertas ao diálogo e à intercomunicação, porque toda ciência humanista deve estar a serviço do homem.
É importante destacar ainda, que por mais eficazes que sejam os métodos de trabalho de criação de saberes, eles de pouco valem se não forem, antes, durante e depois de seu acontecimento, uma experiência de um assumido, sério e fecundo diálogo. Um diálogo aberto permanente em todos os momentos e não apenas quando concluída a experiência.
Desta forma, o trabalho de campo na fase exploratória buscou, num primeiro momento, o reconhecimento do espaço a ser estudado, coletando as impressões gerais, quando utilizamos basicamente a observação-participante e o diálogo. Foi preciso possibilitar aos acadêmicos a visita à comunidade à aproximação das pessoas antes de qualquer atividade. Foi necessária uma aproximação gradual, refletindo e avaliando cada momento e rediscutindo com os acadêmicos o foco e o posicionamento principal.       Após a elaboração do projeto, levamo-lo para discutir com os líderes comunitários e só depois das sugestões colocadas por eles, que fizemos a apresentação às mães e à comunidade, entregando então uma cópia para os responsáveis da pastoral da criança. Estabelecemos troca, vínculo e até dividimos funções; fizemos o jogo cooperativo, onde cada momento é uma conquista baseada no diálogo, fugindo assim da obrigatoriedade e, pouco a pouco, fomos colocando nossa ação e nosso papel, como universidade, que foge do paternalismo.
Organizamos um Plano de Ação e passamos a colher os primeiros dados referentes às crianças: o que fazem, como vivem e como brincam.
Também utilizamos a pesquisa documental por meio dos registros nos livros das líderes da Pastoral e obtivemos as seguintes informações: quanto tempo as crianças freqüentam a Pastoral, como foi e está sendo seu desenvolvimento físico e social.
Assim, em uma perspectiva de mutualidade entre o ensinar e o aprender com os sujeitos envolvidos nos processos pedagógicos, além dos ambientes escolares, a pesquisa: “Direitos da Criança: Vozes e Vezes de Mães e Filhos da Vila Margarida”, mais que ensinando, mas, aprendendo os processos pedagógicos com a comunidade.
As ações com os acadêmicos são planejadas no Laboratório do Curso de Pedagogia, dando suporte ao desenvolvimento das atividades junto às crianças envolvendo cultura, lazer, recreação, arte, educação, alfabetização, além das palavras e desenvolvimento infantil.
As atividades com as mães acontecem simultaneamente com as crianças através de ações tais como palestras, música, “roda de conversa” e ainda atividades físicas e geração de emprego-rendas, ministradas por acadêmicos, pela professora responsável e líderes comunitários. As ações com os acadêmicos monitores acontecem quinzenalmente no próprio Laboratório de Pedagogia e as ações com as crianças e mães ocorrem todos os primeiros sábados de cada mês das 13h às 17h na comunidade da “Vila Margarida”.
O grupo de estudo sobre pesquisa social-participante se reúne uma vez por mês, aos sábados, no espaço da Universidade, para estudos sobre o aporte teórico da pesquisa e do eixo educação infantil e ainda para elaboração de instrumentos de coleta de dados, de preparação das ações para cada visita à comunidade, que acontece mensalmente.
O projeto encontra-se em fase de encaminhamento de atividade de iniciação científica, com a produção de textos, artigos e palestras para apresentação em eventos internos e externos.
O projeto atende mais de 30 mães e seus respectivos filhos, além da realização de palestras, atividades pedagógicas para as crianças e atividades físicas para as mães, prestando orientações aos líderes comunitários sobre a responsabilidade social. O estudo propõe conscientizar e construir nas pessoas da comunidade o hábito e a responsabilidade para buscar seus próprios mecanismos de sobrevivência, independente do seu nível escolar e econômico.
Assim, os resultados preliminares apontam mudanças no comportamento das mães e das crianças, na produção da auto-estima dos envolvidos, na freqüências às reuniões, no cuidado das mães com a saúde e a higiene das crianças, na habilidade e competência aos acadêmicos com relação à formação teórica e prática para saber lidar com as diferenças econômicas, sociais, culturais e étnicas presentes na sociedade.
 
 

 
 
 
 
Crianças do projeto em atividade de recreação e jogos desenvolvida pelos acadêmicos de Pedagogia e Educação Física.

 
 
 
 
Crianças em desenvolvimento de atividades pedagógicas, pinturas e construção de textos espontâneos, mediada pela acadêmica, Patrícia Queiroz Chagas, do Curso de Pedagogia (ao centro do círculo).
 
 
 
 
 
  
Cantigas de Roda desenvolvidas no grupo de crianças mediada pela acadêmica, Floriana Mendes Resquin, do Curso de Pedagogia.

 

 
 
 
 
 
Atividades de arte-educação mediadas pela acadêmica Raquel de Araújo Silva Raysaro do Curso de Pedagogia.
 
 
 
 
 
 

 

A Professora Coordenadora da Pesquisa Drª Terezinha Bazé de Lima, e a acadêmica, Nilda Teodoro Tosta (Pedagogia), em palestra com as mães sobre Educar e Cuidar as Crianças.
 
 
 


 
 

 

Os líderes comunitários, Sr. Filinto, Dona Maria e Vilma Pereira dos Santos, Coordenadora Comunitária do Projeto, em momento de palestra bíblica. Todos os envolvidos, inclusive os pesquisadores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação Popular Cidadã. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
 
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a educação infantil. Vol. 1. Brasília: MEC/SEF, 1998.
 
DEMO, Pedro. Infância e Pobreza – a importância dos primeiros passos para a cidadania. In SILVA, Edson & MOTTI, Ângelo. Cadernos para a Cidadania.10 anos de Estatuto:A construção da cia da criança e do adolescente. Campo Grande, MS: Editora da UFMS, 2001.
 
____________. Pesquisa: princípio científico e educativo. São Paulo: Cortez, 1991.
 
MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 21. ed. Petrópolis, Rj: Vozes, 1999.
 
UNICEF. Situação Mundial da Infância. Brasília:UNICEF, 1998.
 
ZABALZA, Miguel A. Qualidade em educação infantil. Porto Alegre: ArtMed, 1998.