Terezinha Bazé - Educação e Desenvolvimento da Competência Humana
Artigos

PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO NOS DIAS ATUAIS[1]

27/07/2010 - 20h57

 


Prof.ª Dr.ª Terezinha Bazé de Lima [2]
 
A prática pedagógica da alfabetização, atualmente, vem sendo influenciada por alguns estudos e pesquisas sobre Conhecimento e Linguagem: Construtivismo, Socioconstrutivismo, Psicogênese da Língua Escrita, Análise do discurso e linguagem extraverbal.
Construtivismo é a aplicação pedagógica dos estudos de Jean Piaget (1896-1980), educador, psicólogo, biólogo e filósofo suíço que reformulou em bases funcionais as questões sobre pensamento e linguagem. Ao mesmo tempo pensador e cientista experimental, a Piaget interessava uma visão transformadora da Epistemologia.
Segundo suas pesquisas, o conhecimento é construído através da interação do sujeito com o objeto. O desenvolvimento cognitivo se dá pela assimilação do objeto de conhecimento, no nosso caso, a Língua Portuguesa, a estruturas anteriores presentes no sujeito e pela acomodação dessas estruturas em função do que vai ser assimilado. Para Piaget, a criança se apodera de um conhecimento se “agir” sobre ele, pois aprender é modificar, descobrir, inventar. Nesse enfoque, a função do professor é propiciar situações para que a criança construa seu sistema de significação, o qual, uma vez organizado na mente, será estruturado no papel ou oralmente.
O Socioconstrutivismo é uma teoria que vem sendo desenvolvida a partir dos estudos de Vigotsky e seus seguidores. Vigotsky (1896-1934) graduou-se em Literatura na Universidade Moscou. Lecionou Literatura e Psicologia e criou um laboratório de Psicologia no Instituto de Treinamento de Professores. Trabalhou no Instituto de Psicologia e no Instituto de Estudos das Deficiências em Moscou.
No período de 1925 a 1934, reuniu um grupo (do qual participavam Luria e Leontiev) e iniciou estudos sobre a crise da Psicologia, buscando uma alternativa para o conflito entre as concepções idealista e mecanicista.
Os estudos de Vigotsky e seguidores sobre aquisição de linguagem como fator histórico e social enfatizam a importância da interação e da informação lingüística para a construção do conhecimento. O centro do trabalho passa a ser, então, o uso e a funcionalidade da linguagem, o discurso e as condições de produção. O papel do professor é o de mediador, facilitador, que interage com os alunos através da linguagem num processo dialógico.
O Socioconstrutivismo, hoje, traz em si uma convergência das idéias piagetianas e vigotskyanas, enfatizando a construção do conhecimento numa visão social, histórica e cultural. Piaget trabalha com os níveis maturacionais, Vigotsky trabalha com a relação aprendizagem – desenvolvimento. O Socioconstrutivismo apresenta o conceito de zona de desenvolvimento proximal como a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. Diferencia nível de desenvolvimento real (aquele que se caracteriza pelas etapas já alcançadas, resultado de processos de desenvolvimento já completados) de nível de conhecimento proximal (capacidade de desempenhar tarefas com a ajuda de adultos ou de companheiros mais capazes).
A zona de desenvolvimento proximal é um domínio psicológico em constante transformação: aquilo que uma criança é capaz de fazer hoje com a ajuda de alguém, conseguirá fazer sozinha amanhã.
Os estudos sobre a Psicogênese da língua escrita, desenvolvidos por Ferreiro e Teberosky, marcaram a história do processo de alfabetização. Emilia Ferreiro é doutora pela universidade de Genebra e foi colaboradora de Jean Piaget. Realizou investigações científicas que deixam transparente a idéia de que a criança reconstrói o código lingüístico e reflete sobre a escrita. Vem desenvolvendo trabalhos sobre as hipóteses de pensamento que a criança pode apresentar a respeito da linguagem escrita. Ela não propõe uma “nova pedagogia” ou um “novo método”, mas suas pesquisas deixam claro que o que leva o aprendiz à reconstrução do código lingüístico não é o cumprimento de uma série de tarefas ou o conhecimento das letras e das sílabas, mas uma compreensão do funcionamento do código.
Embora não proponha uma prática pedagógica, sua contribuição é essencial para que o educador repense todo o processo de ensino-aprendizagem da língua e o funcionamento do código. Conhecendo os diversos níveis conceituais lingüísticos da criança, é possível criar as atividades para que ela possa desestruturar a sua concepção e construir o conhecimento da base alfabética da escrita.
A Análise do discurso, a Sociolingüística e a Linguagem extraverbal são estudos de linguagem que fundamentam o trabalho de leitura, produção, diversidade de textos, ortografia e gramática como instrumentos de comunicação. Propiciam também a efetivação do trabalho num processo de interação, argumentação e visão crítica da realidade.


[1] Curso de Aperfeiçoamento em Educação Infantil da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar – OMEP/BR/MS. Disciplina: Alfabetização além das palavras.
[2] Doutora em Educação pela UNICAMP; Professora aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Presidenta do Instituto Casa da Cultura Afro-Brasileira – ICCAB e Professora do Centro de Formação de Professores da OMEP.