Terezinha Bazé - Educação e Desenvolvimento da Competência Humana
Artigos

EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UM OLHAR PARA A FORMAÇÃO DO EDUCADOR

27/07/2010 - 20h59

 
Terezinha Bazé de Lima – UNIGRAN – bazelima@unigran.br[1]
Elizabete Velter Borges – UNIGRAN – betevb@yahoo.com.br[2]
 
 
RESUMO: “Educação de Jovens e Adultos: um olhar para a formação do educador” é um estudo que vem se realizando a partir de um projeto de pesquisa da UNIGRAN-Dourados/MS, aprovado pela FUNDECT/MS, que, dentre alguns aspectos e inquietações, o viés da formação de professores é um dos que tem merecido um olhar diferenciado. O referencial teórico e a proposta metodológica têm como base os estudos de Antonio Nóvoa (1995); Carlos Rodrigues Brandão (1996); Geraldi, Fiorentini e Pereira (Org.) (2003); Moacir Gadotti (2001) e Paulo Freire (2003). A metodologia fundamenta-se em uma proposta de intercâmbio com outras instituições de ensino superior do estado, como a UFMS e o IESF/FUNLEC - Campo Grande, as quais têm contribuído para a ampliação do debate sobre as políticas de formação de professores que atendam, realmente, às especificidades da faixa etária em questão. Os resultados preliminares apontam para a necessidade das seguintes ações: a inclusão de uma disciplina obrigatória sobre EJA no currículo do Curso de Pedagogia; a Iniciação Científica; a implementação do Programa EJA/UNIGRAN; o oferecimento de cursos de capacitação continuada para alunos dos cursos de licenciaturas, que atuam como professores da EJA; o desenvolvimento de linha de pesquisa sobre a temática; a orientação de pesquisas acadêmicas dos trabalhos de conclusão de curso e o fortalecimento da produção científica na área.
 
Palavras-chave: Formação docente – Educação de Jovens e Adultos – Prática Pedagógica.
 
 
INTRODUÇÃO:
 
A idéia deste artigo é a de dar conta de uma concepção de atividade de pesquisa-ação como pesquisa-formação, o que consiste em que cada etapa da pesquisa seja uma experiência a ser elaborada a fim de propiciar, a quantos estejam, nela, empenhados, uma reflexão teórica e prática sobre a formação de professores para EJA e os processos pelos quais essa formação acontece no labor da prática pedagógica em salas de aulas da EJA.
O texto organiza-se com base nos resultados de uma das metas da pesquisa em desenvolvimento na Faculdade de Educação do Centro Universitário da Grande Dourados-MS, com apoio da FUNDECT–MS. A pesquisa tem, como orientadora, a Profa. Dra. Terezinha Bazé de Lima coordenadora, também, da pesquisa denominada “Educação de Jovens e Adultos: um processo de letramento e formação docente”, aprovada em 2004; tem, como suporte, a monografia “Educação de Jovens e Adultos do Programa da UNIGRAN: um olhar sobre a formação do educador” de autoria de Elizabete Velter, pesquisadora e colaboradora nesta pesquisa.
            As reflexões que se seguem ao longo deste artigo não são simples impressões que teriam ficado da pesquisa ainda em desenvolvimento, mas resultam de questionamento, de um estudo realizado com os teóricos de formação docente, das observações e entrevistas realizadas junto aos professores, aos quais denominamos de monitores, docentes nas salas de aulas do Programa de Educação de Jovens e Adultos da EJA/UNIGRAN/Dourados/MS.
            As instituições de ensino superior, muito têm se preocupado com a formação profissional docente, pois a qualidade do ensino depende, praticamente, da relação entre professor – aluno e das competências e habilidades que o educador obtém durante sua formação docente; entretanto, as instituições de ensino superior têm dedicado poucos esforços para implementar, em seus currículos, a necessária formação de professores para a EJA.
            O livro “Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a)”, de Geraldi, Fiorentini e Pereira (2003), traz retratada, em todos os seus capítulos, a necessidade de se resgatar o perfil do educador e sua formação de profissional da educação, questionando, dessa forma, sobre a necessária formação ao professor – pesquisador:
 
Trata-se, então, de formar um professor que não abdica do aprender porque a vivência da curiosidade, da vontade de ver/fazer coisas novas e realidades que não estão dadas, é a possibilidade que tem de contagiar o seu aluno. É um professor que por apropriar-se do seu trabalho, indaga-o e indaga as teorias. É um professor que, capaz de se indignar com as contradições, agrega outros na tarefa de suportar o mundo e de guiá-lo por uma história que não negue a existência humana. Um professor que se capacita para contribuir com a elaboração de uma teoria pedagógica que aposte na infância como produtora de um futuro, de um mundo diferente. Um professor que, para produzir essa teoria, seja capaz de seriedade e de rigor, indicados por Freire (1996) como valores necessários à disciplina intelectual, sem temor de enraizar essa produção em opções que, em seu cerne, são éticas e são políticas. (GERALDI et al, 2003, p. 67).
            Verifica-se, portanto, que o professor, em qualquer instância de formação/atuação, precisa ser pesquisador frente a sua prática educativa, ou seja, precisa ter formação e ação baseadas na pesquisa como prática educativa, envolvendo, desse modo, teoria e prática. O educador precisa desenvolver uma prática pedagógica crítico-reflexiva a fim de orientar seus educandos por meio de uma didática que os eduque pela pesquisa, além de analisar o contexto histórico, social e político de seus alunos, auxiliando-os a construir uma sociedade mais justa e igualitária.
            O conceito de educação de jovens e adultos se move na medida em que a realidade faz algumas exigências em relação à sensibilidade e à competência dos educadores. Isso pode ser observado no seguinte argumento de Gadotti:
 
Pela educação, queremos mudar o mundo, a começar pela sala de aula, pois as grandes transformações não se dão apenas como resultantes dos grandes gestos, mas de iniciativas cotidianas, simples e persistentes. (GADOTTI, 2001, p. 65).
 
            Percebe-se, no entanto, que o educador de jovens e adultos constrói o seu saber alicerçado em relações históricas, convicções e compromissos por meio da inserção do professor na sociedade contemporânea, abordando todas as dimensões na sua função de educador. Gadotti, em sua reflexão menciona que: “refletir sobre as funções do educador, rever estratégias de ação, trocar experiências, propor políticas e até mesmo assumir a pedagogia da indignação, só é eficaz no coletivo, pois as atitudes isoladas, [...] pode gerar no enfraquecimento da ação”. (Ibidem, p.67).  
            A formação do professor para EJA é uma prática de conhecimento que visa à aquisição de uma proposta pedagógica pautada no diálogo, questionamento e na compreensão da realidade que nos conduz à busca de novas propostas coletivas de mudanças, em que o conhecimento deve ser apresentado como uma construção social.
            Existe, já, um grande número de pesquisas desenvolvidas que enfocam a formação de professores, entretanto, relativamente e especificamente a pesquisas sobre a formação de educadores de jovens e adultos, o número ainda é muito pequeno.
            Praticamente não existe uma política nacional e/ou estadual de formação de docentes para a educação básica de jovens e adultos. A conseqüência disso é o despreparo da grande maioria dos professores que atuam nessa área de ensino, que não conseguem, muitas vezes, realizar uma reflexão sobre a construção da prática pedagógica em sala de aula com seus educandos, tampouco, efetuar pesquisas visando a adquirir e aprimorar seus conhecimentos. Segundo Lima: “é importante destacar a perspectiva da formação inicial e continuada do professor por meio da atividade de pesquisa, que lhe permitirá ser visto, de fato, como um pesquisador da prática pedagógica, ou seja, pesquisador-na-ação”. (LIMA, 2004, p. 65).
            O educador de educação de jovens e adultos precisa ser preparado para dar conta de fazer do espaço da sala de aula na EJA, um espaço da construção coletiva, onde a pesquisa, como princípio educativo e pedagógico, contribua para a construção da aprendizagem significativa dos educandos. Essa aprendizagem é medida conforme a necessidade e característica do grupo, de acordo com a realidade escolar e a vivência de cada educando. É necessário que o professor trabalhe de forma interdisciplinar com os seus educandos, valorizando a experiência de cada um, integrando a turma à vida escolar, ampliando, assim, o universo cultural por meio da socialização.
            Freire colabora, nesse sentido, com esta reflexão.
 
Como ensinar, como formar sem estar aberto ao contorno geográfico, social, dos educandos? [...] Preciso, agora saber ou abrir-me à realidade desses alunos com quem partilho a minha atividade pedagógica. Preciso tornar-me, se não absolutamente íntimo de sua forma de estar sendo, no mínimo, menos estranho e distante dela. (FREIRE, 2003, p. 137).
 
            O professor de educação de jovens e adultos precisa orientar as disciplinas à medida que aparecem na vida dos educandos, ensinando por meio da própria experiência da turma, usando-a como exemplo em algum conteúdo a ser trabalhado. O educador deve ampliar os horizontes culturais dos estudantes integrando jovens e adultos aos outros alunos, de modo a sentirem-se motivados e perseverantes no caminho do aprendizado. Esse professor precisa ser criativo ao ponto de adequar o conteúdo a ser trabalhado à realidade do aluno e esta é uma competência a ser desenvolvida no processo de formação dos professores da educação de jovens e adultos.
            Percebe-se, no entanto, a urgência em se desenvolver uma análise sobre a formação do educador de jovens e adultos, assim como a preparação teórica e prática necessária para que esse profissional atue com a segurança e a qualidade que essa modalidade de ensino requer. 
Constata-se que o processo de formação desses professores consiste, segundo a Proposta de Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da Educação de Jovens e Adultos, em criar condições para o exercício da profissão, ou seja, condições para o desenvolvimento de competências e aquisição dos conhecimentos requeridos para esse exercício da profissão docente, visando a um ensino de qualidade, a um corpo docente qualificado para atuar com essa modalidade de ensino, com educadores que marquem a vida dos educandos e que sejam, principalmente, um diferencial à cidadania com responsabilidade social e inclusiva; além disso, requer-se, dessa formação, a criação de mecanismos para a real valorização do educando perante a sociedade.
Segundo Gadotti (2001), os professores que trabalham na Educação de Jovens e Adultos, em quase sua totalidade, não estão preparados para atuarem no campo específico dessa modalidade de ensino. Em geral, são professores leigos ou pertencentes ao próprio corpo docente do ensino regular. Na formação de professores não se tem observado uma preocupação referente ao campo específico da Educação de Jovens e Adultos.
Neste estudo, os sujeitos pesquisados demonstram grande interesse e preocupação em sua formação inicial e continuada como educadores na área da EJA. Para expormos seus posicionamentos foram designadas letras do alfabeto que identificam as iniciais de seus nomes. Por exemplo: o professor J, em relação à capacitação continuada, argumenta que tem participado das seguintes capacitações:
 
[...] participei do curso ministrado pela UNIGRAN no início do ano e também participei de vários cursos como: Seminários de Estudos pedagógicos realizados na UEMS, Formação Continuada de Alfabetização realizada na Escola Municipal Clarice; Seminários da Rede Municipal de Ensino; Reorientação Curricular; Cursos de Jogos, dinâmicas, músicas, contar de histórias e o PROLER [...] (SUJEITO J).
 
Pelo depoimento desse professor, verifica-se que, para ele, a formação do educador é algo fundamental, pois tem procurado aperfeiçoar suas competências, adquirindo maior conhecimento para trabalhar com os seus educandos de forma significativa e prazerosa.
O professor A também tem demonstrado grande interesse pela formação, ou seja, pela capacitação como educador de Jovens e Adultos, pois: “[...] à medida que a Prefeitura vem oferecendo seminários, cursos, eu tenho participado bastante. Os cursos que a UNIGRAN têm oferecido, como o de capacitação, também tenho feito todos [...]”. (SUJEITO A).
Vários professores pesquisados demonstraram, em suas falas, uma preocupação constante com a formação inicial e continuada, visando adquirir maior qualificação para atuarem como docentes na Educação de Jovens e Adultos, procurando aprimorar e inovar suas práticas pedagógicas.
Nóvoa (1995) argumenta que a formação continuada deve contribuir para desenvolver, no educador, um perfil pesquisador, que não seja um pesquisador obcecado pela cientificidade, mas um educador capaz de refletir a sua própria prática pedagógica, buscando compreender o processo ideal de aprendizagem para cada educando dessa modalidade de ensino.
            Todos os sujeitos professores pesquisados são alunos-acadêmicos, em grande parte, da Faculdade de Educação, oriundos dos cursos de licenciatura, como: Artes Visuais, Letras, Matemática, Pedagogia e Ciências Biológicas. Sabe-se, entretanto, que todos estão buscando uma formação inicial, como a graduação, visando atuar dentro do paradigma de professores pesquisadores o que estão adquirindo por meio de cursos, palestras, seminários, encontros de formação, trocas de experiências e outros; procuram ampliar o seu universo cultural, valorizando a experiência de cada educando e trabalhando de forma coletiva e interdisciplinar.
Segundo Paulo Freire (2003), o educador precisa estar qualificado para atuar na EJA, sabendo valorizar e respeitar as peculiaridades de cada educando da sua sala de aula, tendo uma reflexão teórico-prática sobre sua prática pedagógica, ou seja, sobre sua própria concepção metodológica de como trabalhar de forma diferenciada com a Educação de Jovens e Adultos.
O mesmo autor critica severamente o professor que desenvolve sua prática baseada na educação bancária, que vai transformando o educando num “fundo bancário”, ou seja, o educador deposita, de forma mecânica, informações ao educando, e este memoriza os dados adquiridos. Mediante essa postura, Paulo Freire, descarta o método tradicional de ensino, que tem a cartilha como uma única fonte e base para aquisição dos conhecimentos e, principalmente, para a alfabetização de jovens e adultos. O sujeito da pesquisa denominado “coordenador A”, argumenta que:
 
[...] o educador acha mais fácil trabalhar com a cartilha a forma silábica ,é claro que realmente é mais fácil, mas para o adulto isso não tem significado algum. É importante sim, procurar trabalhar conforme o método Paulo Freire, a montagem e a desmontagem do texto mediante uma palavra de tema gerador, conforme a realidade daquela turma. [...] (SUJEITO A)
 
Segundo argumenta, também, Brandão (1996), a educação de jovens e adultos deve ser um ato coletivo, solidário e, principalmente, um ato de amor entre educador e educando, em que o educador procura conscientizar os seus educandos dos problemas que os cercam, conduzindo-os à compreensão de mundo e ao conhecimento da realidade social, proporcionando-lhes qualidade de vida mediante a aquisição do saber.
O sujeito professor A, demonstra, em sua fala, ter uma grande preocupação com a metodologia com que prepara e desenvolve suas aulas:
 
[...] nós trabalhamos as profissões e as receitas. Nós trabalhamos materiais de limpeza, porque são coisas que eles conhecem. Então nesse inverno, estava todo mundo meio adoentado, gripado, trabalhei um textinho sobre a tosse. Foram trabalhadas receitas caseiras, houve uma troca de experiência com xaropes caseiro. Uns levaram guaco, outros levaram outras ervas. Então a gente procura trabalhar a realidade deles. Eu procuro adequar os conteúdos a realidade deles. Eu trabalho com os livros de 1ª a 4ª séries, pego exercícios um pouquinho de cada e trabalho com eles, mesclando bastante. Trabalho também atividades recreativas como a recreação. Trabalho também artes, ensino eles a forrarem caixas de papelão, então minha aula é bastante diversificada. Trabalhamos com a palavra, frase e textos onde trabalhamos com receitas, cada aluno trouxe várias receitas, depois escolhemos uma pra fazermos como lanche, que são coisas da realidade deles. Foi uma experiência muito agradável, eles adoraram, trocaram receitas. Então, eu aproveito dessa introdução e vou trabalhando a disciplina e assim a gente faz a aula como uma roda de conversa, procuro trabalhar com o contexto deles, não me prendo muito a parte teórica, mas a gente procura introduzir a aula dentro da realidade deles [...] (SUJEITO A).
 
Para esse professor A, a aula é trabalhada de forma diferenciada e interdisciplinar, envolvendo os conteúdos que precisam ser trabalhados na educação de jovens e adultos, com as experiências e realidade de vida dos educandos.
Paulo Freire (2003) adianta que a alfabetização de jovens e adultos não é simplesmente um ato de ler e escrever, por exemplo, um simples bilhete, mas o de construir a leitura e a escrita crítica e participativa, de forma que os alunos tenham uma participação social efetiva e que possam transformar a realidade em que vivem.
Nesse sentido, os educadores devem, constantemente, avaliar suas práticas pedagógicas, buscar aprofundar teoricamente aspectos ligados à educação de jovens e adultos, resgatar, em primeiro lugar, a consciência sobre as seguintes questões: quem são os educandos, como eles pensam, como dimensionam seu tempo, quais seus interesses, como percebem o mundo a sua volta, quais suas necessidades, como constroem o conhecimento e outras mais.
De acordo com a fala do sujeito C, informante desta pesquisa, pode-se avaliar a importância de conhecer primeiro quem é o nosso educando, fazendo, no entanto, um diagnóstico da turma para verificar quais são os conhecimentos que os alunos já possuem e quais são suas experiências de vida para, a partir daí, introduzir o conteúdo a ser trabalho de forma diferenciada e interdisciplinar:
 
[...] no início das aulas eu não tinha assim planejamento pronto fechado, porque eu tava lá pra conhecer primeiro quem são eles, de onde vieram, quais seus conhecimentos prévios. Foi minha 1ª experiência, e assim eu queria saber o que vinha de cada aluno, pra mim ir organizando as atividades. E, depois de um tempo que eu vi assim, o que cada um precisava, ai eu comecei a planejar certinho, foi depois que eu descobri a realidade de cada um. Eu planejo, tenho uma apostila que foi organizada pela da monitora do ano passado, uma apostila de alfabetização da Iuderce, que ela organizou e relaciona interdisciplinaridade. É uma apostila que eu tenho base. Porque cada aula eu vejo as dificuldades para as próximas aulas. Porque eu não conheço ainda totalmente o que eles sabem e o que eles não sabem [...] (SUJEITO C).
 
A formação dos educadores da EJA, segundo Ribeiro (2002), deve articular a prática e a teoria a todo o momento, pois o que se pretende alcançar é um maior conhecimento da realidade, de forma a intervir nesse contexto, melhorando a qualidade da prática dos educadores juntamente com os educandos.
Podemos perceber, com base na observação de uma das turmas do Programa de Educação de Jovens e Adultos, que o sujeito P, procura trabalhar a realidade de seus educandos, seu cotidiano, adaptando-os ao conhecimento que adquirem. Durante a observação participativa realizada nessa turma, constatou-se que o sujeito da pesquisa cumpria sua aula no pátio da Empresa, instruindo seus alunos sobre a importância da preservação do meio ambiente, já que eles trabalham na limpeza urbana do município de Dourados-MS.
Para Gadotti (2001), o importante, nas aulas de alfabetização de jovens e adultos, é que o educador planeje suas aulas baseadas num diálogo constante, a fim de que possa ouvir, falar, valorizar e ajudar o seu educando. O sujeito D argumenta, em seu depoimento, que:
 
[...] aula preparada surge de um diálogo, de acordo com o que o aluno quer aprender, depende da realidade dele, porque não adianta preparar uma aula que sem ter a realidade deles, pois senão, não irá interessar para eles, não vai motivar e vão acabar não gostando da aula e vão desistindo de estudar ou não vão mais na aula. Então eu acho que o planejamento da aula tem que sair da sala de aula, de um diálogo, uma conversa, não levando material escrito, mas pelo diálogo anota num papel para próxima aula, como texto, frase, palavra, música, não só escrita, mais também música que já motiva também, pra não ser cansativo pra eles [...] (SUJEITO D).
 
Percebe-se que, para esse sujeito, o importante é o conhecimento da realidade que o aluno traz consigo, bem como suas experiências de vida; procure-se, dessa forma, valorizar os conhecimentos dos educandos, ouvindo suas experiências, dialogando com eles em linguagem e tratamento adequados à realidade deles e estimulando-os para o exercício da cidadania, motivando-os, sobretudo, a continuarem na educação de jovens e adultos e aprenderem cada vez mais.
Segundo Paulo Freire (2003), os adultos exigem do professor, além dos saberes disciplinares, práticas educativas que aproveitem a sua bagagem cultural e experiência acumulada. O ideal é que a alfabetização de jovens e adultos responda às suas necessidades, estabelecendo uma relação entre os conteúdos trabalhados e o uso que farão deles posteriormente. Nesse sentido, o professor B relata como procura trabalhar as aulas com os seus educandos, enfatizando a importância do diálogo, da conversa entre professor e aluno, trocas de experiências, destacando, ainda, sobre a importância de prepará-los para atuarem na sociedade de forma mais justa e igualitária, para conhecerem e usufruírem seus direitos, bem como de cumprirem seus deveres numa sociedade capitalista e desigual como a nossa:
 
As aulas são desenvolvidas mediante a realidade deles, diante de situações – problemas [...] eu conheço do que elas falam; por que a gente sempre conversa bastante, fala bastante dos filhos, da família, mas o que eu conheço é mais o que eles falam. Os exemplos que eu uso na sala de aula são tudo em cima disso. A comida, o tempo que leva pra fazer tal coisa, tudo em cima dessas situações diárias deles. [...] os planejamentos, eu penso assim, no que eles vão precisar no dia-a-dia. Por exemplo: procuro passar, o Estado, qual estado que eles moram. A região, quais são as cinco regiões, situações – problema, quando vão ao supermercado quanto vão gastar. Então eu penso, na situação da realidade, preparar eles para o dia-a-dia, esse é meu objetivo para com eles [...] (SUJEITO B).
 
Paulo Freire, argumenta que ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo em que vivemos e retrata a sociedade da seguinte forma: “Falo da resistência, da indignação, da “justa ira” dos traídos e dos enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas.” (FREIRE, 2003, p.101). Percebe-se que o autor procura argumentar como a sociedade capitalista acaba excluindo o indivíduo da sociedade, dominando-o totalmente quanto as suas vontades e abolindo os seus direitos e deveres como cidadãos. Freire (2003, p. 103) observa, também, que o professor precisa ser a favor “[...] da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais [...] Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo [...]”.
O sujeito coordenador B retrata que o projeto de educação de jovens e adultos da UNIGRAN tem contribuído para o exercício da cidadania, mediante estudos e trabalho didático com o Estatuto do Idoso, fornecido pela própria Instituição aos alunos do Programa EJA/UNIGRAN.
[...] nós conseguimos duas bolsas de iniciação científica para o projeto. Então hoje temos duas monitoras de iniciação científica, a segunda está começando agora que é uma aluna do Curso de Direito que vai trabalhar o eixo da cidadania, porque a pesquisa amarra esse eixo, e ela vai estar visitando cada turma para trabalhar o Estatuto do Idoso para poder trabalhar a questão dos direitos e deveres do idoso [...]. (SUJEITO B).
 
O professor de Educação de Jovens e Adultos precisa manter acesa a chama do conhecimento dentro dele, como um educador marcante e inesquecível na vida dos seus educandos, reascendendo a cada dia sua esperança por uma educação melhor e por uma sociedade mais justa e democrática.
Em Geraldi, Fiorentini e Pereira (2003), verifica-se que o educador tem fundamental papel de estimular o pensamento e as atitudes criativas em seus educandos, bem como, proporcionar condições físicas e ambientais que tornem a sala de aula um espaço gerador de novas idéias e conhecimentos. O professor de educação de jovens e adultos precisa ser criativo, a ponto de utilizar a própria experiência de vida dos educandos e a realidade da comunidade escolar para alfabetizar e socializar conhecimentos.
O professor J relata como procura trabalhar a questão da criatividade com os seus educandos:
Desenvolvo uma de minhas aulas através de alfabeto móvel, dominó silábico, aula de reciclagem, aulas de culinária, etc. Procuro trabalhar todas as áreas do conhecimento enfatizando mais a alfabetização. [...] procuro trabalhar de forma diferenciada através de música, brincadeiras educativas e artesanatos, reciclagem, receitas práticas (culinária). [...] as aulas são desenvolvidas mediante a história de vida dos educandos de acordo com as necessidades de cada aluno. (SUJEITO J).  
 
Constata-se, então, a necessidade de o educador ministrar suas aulas de forma significativa e prazerosa para os alunos, fazendo com que esse aprendizado seja significativo tenha efeito transformador na vida dos alunos.
Geraldi et all (2003, p. 170) argumentam o seguinte:
 
Ao refletir sobre sua prática os professores não só desenvolvem suas estratégias docentes como também compreendem melhor os objetivos e princípios que devem levar à prática. Nessa perspectiva, os professores articulam problemas práticos e propostas de soluções.
 
Em suma, pode-se constatar a importância de o professor ser um pesquisador reflexivo em sua própria prática pedagógica, procurando, cada vez mais, melhorar sua atuação docente.
O educador de jovens e adultos precisa munir-se de bases teóricas, ou seja, referenciais que fundamentem e alicercem seu conhecimento e método, além de auxiliá-lo em suas dificuldades, preparo de suas atividades e aprimoramento da sua prática docente como verdadeiro educador na EJA.
Nesta pesquisa, por meio das visitas em salas de aulas e acompanhamento nos momentos de capacitação e encontros de planejamento, percebemos que a maioria dos sujeitos pesquisados, professores atuantes em turmas de EJA, não têm um referencial teórico e também não têm dedicado tempo à leitura específica sobre educação de jovens e adultos, visando a um maior conhecimento nessa modalidade de ensino. Muitos responderam ter, como suporte teórico, revistas, livros e apostilas; entretanto, ao serem indagados sobre os nomes dessas revistas, livros e apostilas, simplesmente não o souberam dizer, respondendo apenas: “é o material que eu pego às vezes na escola, outros emprestados ou até mesmo em casa”. Com isso, verifica-se a necessidade de maior capacitação para os sujeitos pesquisados como também um referencial de base teórica para trabalhar na Educação de Jovens e Adultos, visando solidificar e aumentar as trocas de experiências existentes entre os próprios professores que atuam como docentes em salas de EJA.
De acordo com Paulo Freire (2003), o educador precisa, em primeiro lugar gostar do que faz e dos educandos, desenvolver um trabalho coletivo, e socialmente contextualizado; basear-se num compromisso de refazer o mundo e mergulhar numa sensibilidade para o pluralismo cultural, respeitando e valorizando cada aluno e suas peculiaridades. O professor K ressalta a importância da dedicação do professor com os jovens e adultos:
 
[...] muito amor e dedicação para com a turma, valorizando cada conhecimento que adquirem ao passar do curso. Minha interação é de amizade adquirida pela classe, pois todos são da minha comunidade. O carinho e o amor que são dedicados pela professora. O despertar para uma qualidade de vida melhor. O querer lutar pelos seus direitos e valores. A felicidade em saber que tem alguém especial que está disposta para ajudar com todo amor e paciência [...] (SUJEITO K).
 
A relação entre professor-aluno e aluno-aluno é fundamental no processo ensino-aprendizagem, principalmente na educação de jovens e adultos em que os educandos já trazem consigo uma bagagem de conhecimentos e experiências de vida. O professor I, também retrata o estímulo que propicia a seus alunos; segundo ele: “[...] já visitei a casa de quase todos, procuro mostrar a eles que sou como eles, nós nos socializamos muito bem, [...]”. (SUJEITO I). 
A interação por meio do diálogo e da socialização entre professor e aluno, demonstra que ambos são pessoas atuantes dentro de uma mesma sociedade e faz com que esse relacionamento seja amadurecido cada vez mais, valorizando o educando com suas experiências de vidas e, também, o educador, como um intermediador no processo de ensino e aprendizagem. O professor G aponta, em suas respostas à entrevista, como trabalha a questão da interação entre professor e aluno via diálogo:
 
[...] procuro selecionar textos da vida cotidiana de cada um deles. Toda semana levo uma oração ou pensamento que estimula no trabalho e que possa refletir sobre o assunto. [...] Temos uma boa interação, pois respeitamos uns aos outros. Sinto um carinho muito grande por todos eles e sou correspondida ao mesmo. (SUJEITO G).
 
Assim, podemos constatar que o Programa de Educação de Jovens e Adultos está contribuindo com a alfabetismo de jovens e adultos que não tiveram oportunidade, em idade escolar apropriada, de se alfabetizar, e, ainda, que os professores, sujeitos desta pesquisa, têm demonstrado dedicação no trabalho que realizam, por meio atenção especial e carinho aos educandos, estimulando-os ao exercício da cidadania.
Há, porém, uma necessidade de formação continuada e de trocas de experiências que se baseiem nos teóricos que abordam a questão da educação de jovens e adultos; que se ressaltem as necessidades de constante aperfeiçoamento reflexivo nas práticas pedagógicas; que se coloquem em prática, de forma interativa e significativa, o conhecimento adquirido em suas formações.
 
CONCLUSÃO:
 
Este estudo possibilitou refletir sobre as reais necessidades do professor para sua atuação com turmas de educação de jovens e adultos. Como já mencionado anteriormente não é um trabalho que está pronto e acabado, mas que abriu “janelas” para melhor planejar sobre a formação do educador na EJA levando-o a assumir uma prática pedagógica contextualizada por meio do círculo da cultura, como menciona Freire (2003), valorizando os contextos históricos e sociais de vida dos educandos.
Por meio dele, foi possível constatar que o educador precisa ser marcante e atuar como referência na vida dos seus educandos; ser um diferencial para os alunos, que, mesmo possuindo anos de experiência e tendo adquirido algum conhecimento de vida, muitos deles não possuem uma visão crítica sobre a realidade na qual estão inseridos, não sendo capazes de reivindicar seus direitos e cumprir seus deveres como cidadãos pertencentes a uma sociedade.
Paulo Freire (2003) menciona a educação sendo um ato de amor em que o professor é o transmissor desse amor. Um amor que busca o diálogo, o respeito, a valorização, a coletividade, a troca de experiências e principalmente um amor que se transforme em ato de cumplicidade pela qualidade de vida dos envolvidos.
Acreditamos que o educador, para ser marcante e inesquecível, na educação de jovens e adultos, precisa amar aquilo que faz, ou seja, ter vontade e gostar de atuar com essa faixa etária diferenciada; precisa ser criativo, dinâmico, qualificado, como também buscar capacitações para melhorar sua prática pedagógica utilizando a própria realidade de vida dos educandos para trabalhar os conteúdos a serem ensinados em suas salas de aula.
            Assim, ao encerrar este artigo, argumentamos sobre a importância de se trabalhar a teoria apropriada a uma pedagogia contextualizada na EJA, por meio de uma prática calcada numa postura reflexiva, considerando que o educador nessa modalidade de ensino precisa ser um constante pesquisador, sustentado por estudos teóricos e práticos que se vinculem a sua prática pedagógica.
            Podemos concluir que a educação de jovens e adultos é um processo por meio da qual o indivíduo usufrui a sua própria história, a fim de almejar uma perspectiva de vida melhor. Isso é possível mediante a confiança que o professor pode depositar no educando, na sua capacidade de aprender, de descobrir, de criar soluções e de enfrentar desafios.
Para tanto, é necessário que tenhamos novas práticas educativas com os educandos jovens e adultos, a fim de que o aprendizado seja significativo para eles. Segundo as posições dos professores informantes desta pesquisa e dos teóricos estudados, relativamente à busca de novas práticas educativas, devemos refletir sobre como funciona o processo de educação para os jovens e adultos em nossos dias. A aprendizagem significativa se dá por meio de um processo de construção do conhecimento calcado em uma interação do contexto da realidade do educando e envolve, também, questões de ordem lógico-intelectual, afetiva, sócio-cultural, política e técnica.
Baseados nessas reflexões, podemos considerar, ainda, que a educação de jovens e adultos, para que obtenha resultados significativos, principalmente com os educandos, carece de professores que busquem tecnologias adequadas à realidade desses alunos. Neste contexto, o papel do educador é o de mediador do processo de aprendizagem, que prioriza a bagagem de conhecimentos trazida por seus alunos, e os ajuda, de forma interativa, a transporem esse conhecimento para o “conhecimento letrado”.
 
REFERÊNCIAS:
 
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é o método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 1996.
 
BRASIL, MEC. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Resolução CNE/CEB, nº 1, de 5 de julho de 2000. Brasília: MEC, 2000.
 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
 
_____. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
 
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[1] Professora Doutora em Educação pela UNICAMP-SP. Atualmente é professora titular da UNIGRAN/ Dourados. Pesquisadora da FUNDECT/MS na área de Formação Docente para Educação de Jovens e Adultos.
[2] Pós-graduadao em Metodologia do Ensino Superior da UNIGRAN e em Educação de Jovens e Adultos pela UEMS. Graduada em Pedagogia na UNIGRAN/Dourados no ano de 2005. Colaboradora da Pesquisa de Educação de Jovens e Adultos da UNIGRAN e FUNDECT/MS.